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A Criação

Todo louvor à unidade de Deus e toda a honra Lhe seja prestada, ao Senhor soberano, o Incomparável e Todo-Tlorioso Rei do universo, quem, da inexistência absoluta, criou a realidade de todas as coisas, quem, do nada, trouxe para a existência os elementos mais refinados e subtis da Sua criação e, salvando as Suas criaturas do rebaixamento da separação e dos perigos da extinção final, as recebeu no Seu reino de glória incorruptível. Nada menos que a Sua graça que a tudo abrange, e a Sua misericórdia que predomina sobre tudo, poderia ter realizado isso. De outro modo, como teria sido possível o simples nada ter adquirido, por si só, o merecimento e a capacidade para emergir do seu estado de inexistência para o domínio do ser?

Tendo criado o mundo e tudo o que aí vive e se move, Ele, pela operação directa da Sua Vontade absoluta e soberana, dignou-Se conferir ao homem a distinção e a capacidade incomparáveis de O conhecer e amar - capacidade esta que deve ser vista como o impulso gerador e o propósito primário que baseiam toda a criação... A luz de um dos Seus nomes Ele lançou sobre a mais íntima realidade de cada uma das coisas criadas, fazendo dessa realidade um receptáculo da glória de um dos Seus atributos. Sobre a realidade do homem, porém, Ele focalizou o fulgor de todos os Seus nomes e atributos e fê-lo um espelho do Seu próprio Ser. Entre todas as coisas criadas, apenas o homem foi distinguido com tão grande favor, com uma graça tão duradoura.

Essas energias com as quais o Sol da Generosidade Divina e Fonte da Guia Celestial dotou a realidade do homem, porém, jazem nele latentes, tal como a chama se oculta dentro da vela e os raios de luz estão, potencialmente, presentes na lâmpada. O brilho dessas energias pode ser obscurecido por desejos terrenos, assim como a luz do sol se pode esconder sob o pó e as impurezas que encobrem o espelho. Nem a vela, nem a lâmpada pode acender-se pelos seus próprios esforços, sem auxílio, nem será possível jamais que o espelho, por si só, se livre das suas impurezas. Está claro e evidente que, antes de se atear o fogo, a lâmpada nunca será acesa, e a não ser que as impurezas sejam completamente removidas da face do espelho, este nunca poderá representar a imagem do sol, nem reflectir a sua luz e glória.

E uma vez que não pode haver um laço de relação directa para ligar o Deus Uno e Verdadeiro à Sua criação, nem pode existir qualquer semelhança entre o transitório e o Eterno, o contingente e o Absoluto, Ele ordenou que em cada era e dispensação uma Alma pura e imaculada se manifestasse nos reinos da terra e do céu. A esse Ser subtil, esse Ser misterioso e etéreo, Ele atribuiu uma natureza dupla: a física, pertencente ao mundo da matéria, e a espiritual, oriunda da substância do próprio Deus. Conferiu-Lhe também uma condição dupla. A primeira condição, que está relacionada com a Sua mais íntima realidade, representa-O como Aquele Cuja voz é a voz do próprio Deus. Isto é testemunhado pela tradição: "Múltipla e misteriosa é Minha relação com Deus. Eu sou Ele, Ele mesmo, e Ele é Eu, Eu mesmo, excepto que Eu sou o que sou e Ele é o que é." E de igual modo, as palavras: "Levanta-te, ó Maomé, pois eis, o Amante e o Bem-Amado unem-se, tornam-se um só em Ti." De forma semelhante, Ele diz: "Não há qualquer distinção entre Ti e Eles, salvo que Eles são Teus Servos." A segunda condição é a humana, exemplificada pelos seguintes versículos: "Sou apenas um homem como vós." "Dize, louvado seja meu Senhor! Serei Eu mais que um homem, um apóstolo?" Essas Essências do Desprendimento, essas esplendorosas Realidades, são os veículos da graça omnipresente de Deus. Seguindo a luz da guia infalível e possuidora de soberania suprema, são incumbidas de usar a inspiração das Suas palavras, as emanações da Sua graça perene e a brisa santificadora da Sua Revelação para purificar todo coração ardente e espírito receptivo, livrando-os do pó das impurezas das ansiedades e limitações terrenas. Então, e somente então, Aquilo que Deus lhe confiou, latente na realidade do homem, emergirá, esplendoroso como o Orbe nascente da Revelação Divina, por detrás do véu da ocultação e implantará a insígnia da Sua revelada glória no ponto mais alto dos corações dos homens.

Das passagens e alusões supracitadas, torna-se indubitavelmente claro que nos reinos da terra e do céu manifestar-se-á necessariamente um Ser, uma Essência, que agirá como Manifestante e Veículo para transmitir a graça da própria Divindade, o Senhor Soberano de todos. Através dos Ensinamentos deste Sol da Verdade, todo homem progredirá e desenvolver-se-á até atingir o grau em que possa manifestar todas as forças potenciais com que o seu mais íntimo e verdadeiro ser foi dotado. É para este próprio fim que, em cada era e dispensação, os Profetas de Deus e Seus Eleitos aparecem entre os homens e demonstram aquele poder oriundo de Deus e aquela força como somente o Eterno há de revelar.

Pode alguém de mente sã alguma vez imaginar seriamente que, devido a certas palavras cujo significado lhe é incompreensível, o portal da infinita guia de Deus se poderá fechar perante a face dos homens? Poderá ele conceber para esses Luminares Divinos, essas Luzes resplandecentes, um começo ou um fim? Que emanação transbordante é comparável ao fluxo da Sua graça que tudo abrange, e que bênção que pode exceder as evidências de tão grande e predominante misericórdia? Sem dúvida alguma, se por um só momento o fluxo da Sua misericórdia e graça lhe fosse retirado, o mundo pereceria completamente. Por esta razão, desde o começo que não tem começo, os portais da misericórdia Divina têm estado abertos de par em par à face de todas as coisas criadas, e as nuvens da Verdade continuarão, até ao fim que não tem fim, a derramar os seus favores e graças sobre o solo da capacidade, realidade e personalidade humanas. Tal é o método contínuo de Deus, desde sempre e para todo o sempre.[1]  

 

* * * * * * * * *

 

Quanto à tua pergunta relativa à origem da criação, sabe tu com segurança, que a criação de Deus existe desde a eternidade e continuará a existir para sempre. Seu princípio não teve princípio e o seu fim não conhece fim. O nome de Deus, o Criador, pressupõe uma criação, assim como o título, o Senhor dos Homens, deve envolver a existência de um servo.

A respeito daquelas afirmações atribuídas aos Profetas da antiguidade, tais como, "No princípio havia Deus; não havia criatura para conhecê-Lo" e "O Senhor estava só; sem ninguém para adorá-Lo", o sentido destes e de outros dizeres semelhantes é claro e evidente e em tempo algum deve ser mal interpretado. Dessa mesma verdade dão testemunho estas palavras que Ele revelou: "Deus estava só; não havia nenhum outro além d'Ele. Eternamente haverá Ele de permanecer o que sempre foi." Todos os olhos de discernimento perceberão prontamente que o Senhor está agora manifesto, mas que não há quem Lhe reconheça a glória. Isso significa que a morada em que o Ser Divino habita está muito além do alcance e do conhecimento de qualquer um, salvo Ele. Nada no mundo contingente que possa ser expresso ou percebido, poderá jamais ultrapassar os limites que, por sua natureza inerente, lhe foram impostos. Deus, tão somente, transcende tais limitações. Ele, em verdade, existe desde sempre. Nunca houve, nem pode haver jamais, igual ou associado que se una com Ele. Nome algum é comparável ao Seu Nome. Nenhuma pena pode representar a Sua natureza, ou língua alguma descrever a Sua glória. Ele, para todo o sempre, permanecerá imensuravelmente enaltecido acima de qualquer um, salvo Ele Mesmo.[2]



[1]Selecção dos Escritos de Bahá’u’lláh, XXVII

[2]Selecção dos Escritos de Bahá’u’lláh, LXXVIII


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