Quais são os ensinamentos Bahá'ís
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O texto seguinte é a tradução de um artigo de İzgi Güngör, publicado em Dezembro de 2007 no Turkish Daily News, um jornal turco de língua inglesa; pelo estilo do inglês, depreendo que se trata de uma tradução (provavelmente do turco). O texto original em inglês pode ser lido aqui e aqui.
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Com cerca de 10.000 membros na Turquia, a Comunidade Baha’i aspira ao reconhecimento oficial pelo Estado e deseja a eliminação dos preconceitos e descrições públicas incorrectas da sua Fé na Turquia.
"Podemos ser pequenos em número, mas somos uma entidade e, definitivamente, temos uma identidade", afirma o Prof. Cüneyt Can, director do Gabinete de Assuntos Externos da Comunidade Baha’i da Turquia. Muitos Baha’is acusam a Turquia de prosseguir uma política discriminatória contra a Comunidade Baha’i ao não listar a sua fé nos bilhetes de identidade. A filiação religiosa é registada nos cartões de identidade turcos, mas os Baha'is não podem declarar a sua religião nos bilhetes de identidade porque esta não se encontra entre as opções. Os direitos existentes entre 1960 e 1990, foram retirados quando o Ministério do Interior emitiu instruções introduzindo um novo sistema de normalização de códigos que não incluía a Fé Baha'i. "Os direitos, que nos foram anteriormente concedidos, foram retirados. Não há progresso, mas retrocesso", afirma Can.
CRÍTICAS DA UE E DOS EUA
As críticas à Turquia em relatórios distintos da União Europeia e dos Estados Unidos, incluíram pedidos para que fossem dados direitos aos Baha'is. "Documentos administrativos, tais como bilhetes de identidade incluem um espaço onde se deve preencher, ou deixar em branco, a religião. Isto pode levar a práticas discriminatórias. Alem disso, existem preocupações sobre as religiões que não são reconhecidas", declara o relatório de progresso anual da UE, enquanto o relatório do Departamento de Estado dos EUA criticava a Turquia por não reconhecer a Comunidade Baha'i, afirmando que a Turquia continua a restringir a escolha da religião. "Continuamos a aguardar a alteração das leis e do sistema de codificação que permita identificar a nossa religião nos cartões de identidade" afirmou Susan Merter, a coordenadora de Relações Públicas do Gabinete Baha'i de Assuntos Externos. Ela pertence à terceira geração de Baha'is que beneficiou da antiga lei que lhes permitia registarem-se. Neste momento, ela não pode renovar o seu cartão de identidade e ter a sua religião identificada neste.
Merter afirma que não hesita em dizer que é baha'i. "Não hesito; é a minha identidade. O que defendo é correcto e é bom. Aprendemos a Fé Baha'i como uma forma de vida. Aprendemos a ser hospitaleiros, virtuosos e acolhemos as diferenças. Trabalhamos pela paz e ela unidade da humanidade, o que é algo de que não nos podemos envergonhar. Então porque devo ocultar a minha identidade religiosa?" pergunta.
Os baha'is da Turquia não enfrentam problemas apenas com os cartões de identidade. Vivem com os problemas e desvantagens que deriva de serem desconhecidos enquanto minoria religiosa na Turquia. Alguns sentem-se livres para revelar a sua identidade religiosa, mas outros são mais comedidos, temendo a estigmatização e a discriminação social. O problema provém maioritariamente da falta de informação sobre a fé e da incorrecta descrição pública da religião, segundo dizem. Querem ser estudados e compreendidos correctamente e não querem ser associados com outros movimentos religiosos fundamentalistas como as ordens religiosas – ou tarikats.
"Ainda que de forma limitada, alguns de nós têm sido hostilizados e investigados por instituições governamentais. Tentam recolher estatísticas e informações confidenciais sobre nós entre os nossos vizinhos. Depois ficam com uma imagem incorrecta da nossa religião. Não fazemos nada de secreto. As nossas portas estão abertas para todos. Podem participar nas nossas reuniões e aprender as coisas em primeira-mão", afirma Can. Murat Bayer, 35 anos, é um actor de teatro que se converteu do Islão para a Fé Bahá'í em 1993. É o único Baha'i na sua família. O seu primeiro contacto com a fé Baha’i deu-se através de um amigo durante os seus anos como universitário. Primeiramente pensou tratar-se de uma organização tipo ordem religiosa; posteriormente ficou impressionado com os princípios da fé e a sinceridade e hospitalidade dos Baha’is. Agora sente-se livre para revelar a sua identidade religiosa. O mundo da arte, afirma, é mais aberto às diferenças. Durante os seus anos na universidade costumava debater o assunto com os seus amigos e professores que reagiam positivamente e até se sentiam interessados em aprender mais sobre a religião.
"Senti-me muito confortável durante a conferência Habitat II realizadas pelas Nações Unidas em Istambul em 1996. Nessa época eu era um novo Baha'i. A Comunidade Baha'i tem um estatuto consultivo nas Nações Unidas; por esse motivo somos automaticamente convidados para as reuniões. Foi a primeira vez que presenciei algo tão livre e natural", afirma. " A Turquia tenta insistentemente ignorar a existência dos Baha'is mas esta é reconhecida por um importante organismo internacional. Baha'u'llah, o fundador da Fé Baha’i, viveu neste território e disse muitas coisas especiais sobre a Turquia. E é verdadeiramente difícil compreender porque é que a Turquia ignora esta realidade", prossegue Bayer.
Bayer conheceu a sua mulher, Denyze Bayer, em Haifa, Israel, onde trabalhou como voluntário no Centro Mundial Baha’i. Denize, uma brasileira que se converteu do Catolicismo, é professora do ensino pré-escolar numa embaixada em Ankara. Sente-se confortável ao afirmar entre os seus amigos que é Baha’i . Não enfrentou problemas graves na sua vida diária por ser baha'i, salvo alguns olhares suspeitos devido à sua religião. "Quando digo que sou Baha'i, primeiro as pessoas acham estranho e depois ficam curiosas sobre o assunto, pois é algo novo e desconhecido para elas. Mas à medida que conhecem melhor o nosso modo de vida, ficam impressionados. Até querem enviar os seus filhos para as aulas baha’is daqui", afirma.
İhsan Karakelle, de 86 anos, é um sociólogo e funcionário público reformado que trabalhou para o segundo Presidente da Turquia, İsmet İnönü. O seu pai era Baha'i. Teve que ocultar a sua identidade baha'i até 1980, altura em que se reformou e só então passou a revelar abertamente a sua religião. Recorda-se da pressão política colocada sobre a comunidade em 1959 pelo Governo, num esforço para combater os movimentos fundamentalistas islâmicos. "Queriam eliminar esses movimentos, mas atingiam-nos", declara. A sua filiação baha’i não aparece indicada no cartão de identidade, mas afirma que foi uma falta sua. Dilan Can estuda na Universidade de Ankara. O seu pai era Baha’i e ela converteu-se do Islão quando tinha 15 anos, pensa que ser baha’i nesta sociedade é interessante mas por vezes também é desvantajoso. O preconceito tem um papel significativo no relacionamento que outras pessoas têm consigo, e há sempre uma dúvida na mente das pessoas em relação a eles. Até houve quem lhe perguntasse se era satânica! Alguns dos seus amigos Baha’is hesitam em revelar a sua identidade religiosa e ela também começou a ser mais cuidadosa. " Geralmente não digo que sou baha'i; só se me perguntarem. Varia conforme as situações ", conclui.

Outro problema levantado pela Comunidade Baha’i relaciona-se com os cursos de religião. O curriculum das escolas nacionais é baseado na religião Islâmica e as diferentes doutrinas ensinadas na escola e em casa confundem as mentes das crianças. “Mesmo que exista apenas uma criança Baha’i na sala de aula, então a religião Baha’i deve ser ensinada”, defende Merter. Por seu lado, Can quer que os seus filhos tenham educação religiosa na escola, mas não que realizem as práticas islâmicas – como as orações – na escola. "Também deviam aprender sobre as outras religiões. Já é obrigatório nas escolas. Mas nós temos as nossas próprias orações e os meus filhos recebem educação religiosa baha’i em casa". E acrescenta: "Ensinamos uma coisa em casa e eles aprendem outra na Escola; as crianças ficam profundamente confundidas. O governo prefere focar-se na educação religiosa islâmica nas escolas porque a maioria da população é muçulmana; mas podiam, pelo menos, incluir exemplos de outras religiões, quando ensinam o que é bom e o que é mau".
QUEM SÃO OS BAHA’IS?
Fundada no Irão no Séc. XIX por Bahá'u'lláh, a Fé Bahá’ís tem cerca de 10.000 membros na Turquia. Baseada em princípios democráticos e contemporâneos, esta religião tem cerca de seis milhões de seguidores em todo o mundo, e propõe a paz mundial e a unidade como resposta aos problemas da idade moderna. Na cidade turca de Edirne situa-se a Casa de Bahá'u'lláh, onde o líder baha’i viveu entre 1863 e 1868. A casa foi declarada local protegido e recebeu a atenção de figuras políticas internacionais. Os Baha’is acreditam em Deus e nos profetas; acreditam que as religiões são semelhantes a um ciclo de vida. Os seres humanos e a humanidade são orgânicos, e as religiões também; quando terminam a sua existência, surgem novos profetas para a humanidade evoluir. Os Baha’is acreditam que a humanidade tem atravessado uma evolução social desde a família ao estado-nação; de acordo com o Kitab-i-Aqdas (O Livro Mais Sagrado), a próxima fase será a unificação e integração global da sociedade. Os Baha’is realizam reuniões regulares, encontrando-se em cada 19 dias. As pessoas não se podem tornar baha’is antes dos 15 anos, idade considerada como sendo de maturidade espiritual. Estão proibidos de se envolverem em política, mas votam nas eleições na Turquia. Os Bahá’ís não têm superstições, nem bebem álcool. Não usam roupas com simbolismo particular, não possuem rituais religiosos, ou locais especiais de oração para grupos. A Comunidade Baha’is possui um estatuto consultivo nas Nações Unidas.
ACTIVIDADE MISSIONÁRIA
O Departamento de Assuntos Religiosos na Turquia declinou fazer qualquer comentário oficial ao Turkish Daily News sobre a forma como classifica a Comunidade Baha'i na Turquia, mas no seu website considera a Fé Baha’i como uma actividade missionária. Numa das suas publicações periódicas on-line intitulada “Diyanet Aylık” encontra-se um artigo sobre “Actividades Missionárias”, o Departamento inclui a Fé Baha’i entre outros movimentos missionários que pretendem espalhar as suas crenças entre pessoas pertencentes a outras religiões, incluindo o Islão. Ahmet Hikmet Eroğlu, um académico religioso e historiador da religião na Universidade de Ankara, concorda com esta abordagem do Departamento de Assuntos Religiosos. Segundo ele, a Fé Baha’i não é uma religião, mas um movimento ecléctico baseado em religiões mais antigas. “A fé Baha’i não é como outras religiões, tais como o Cristianismo Judaísmo ou o Islão que têm profundas raízes na história”, afirma. "É um movimento novo e ecléctico. O Departamento de Assuntos Religiosos pode vê-lo como uma actividade missionária enquanto não estiver definido com exactidão, e for aceite no mundo como uma religião; sabemos que fazem esforços para promover a sua fé". Por seu lado, Cüneyt Can nega estas alegações , dizendo que a fé existe há mais de 100 anos e que não têm qualquer relação com actividades missionárias. "Este tipo de insinuações e o facto de nos associarem com trabalhos missionários é preocupante", declara. "Nós não empregamos pessoas que trabalhem para converter outros à Fé Baha'i. Não temos qualquer estrutura institucional organizada que trabalhe com esse propósito. Não temos dinheiro ou poder. Não fazemos lobby, nem nos envolvemos na política. O que nos torna fortes são os princípios em que acreditamos. Acreditamos, aplicamos os princípios nas nossas vidas, partilhamos isto com os outros e divulgamos isso. É assim que a nossa religião se espalha"