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Eduardo Duarte Vierira (1921-1966)

Eduardo Duarte Vieira, nasceu na Guiné Portuguesa (atual Guiné Bissau). Ele tinha uma boa educação, uma personalidade atraente, uma mente aberta e uma espiritualidade profunda. As suas nobres qualidades fizeram-no uma figura popular entre o seu povo. Desempenhava um importante cargo no governo da colónia e era muitas vezes chamado a fim de dar as boas vindas, em nome do governo, a importantes visitantes a Bissau. Serviu como membro do Conselho da Igreja em Bissau.

O Sr. Vieira tomou conhecimento da Fé Bahá’í durante uma breve visita a Lisboa, durante a Cruzada dos Dez Anos, e tornou-se um estudioso ávido dos Escritos de Bahá’u’lláh. Rapidamente, abraçou a Causa e tornou-se um crente entusiástico leal e aprofundado. Os amigos de Lisboa relembram com carinho o entusiasmo e a

alegria que ele impregnava às reuniões.

No seu regresso a Bissau, o Sr. Vieira rompeu a sua filiação com a Igreja e começou, com coragem e vigor, a promover os ensinamentos da Fé Bahá’í entre os seus compatriotas. A primeira a abraçar a Fé foi a sua mulher que reconheceu a verdade da Mensagem de Bahá’u’lláh, após um período intenso de estudos e de meditação. Rapidamente se estabeleceu uma comunidade de 15 membros em Bissau e um Centro Bahá’í numa área suburbana.

Um bahá'í de Lisboa registou o seguinte: "Naquela época, nós costumávamos receber do Sr. Vieira cartas maravilhosas. Elas eram altamente inspiradoras e instrutivas. Sempre que as suas cartas chegavam, eu compartilhava-as com os amigos, com alegria e ficávamos inspirados. No entanto, o tempo foi passando, as suas cartas tornaram-se mais espaçadas e irregulares e, posteriormente, deixámos de receber mais notícias. Ele já nos tinha referido as dificuldades e os obstáculos que estava a encontrar no seu próprio trabalho, e dizia que estava numa situação desesperante; mas nós, em Portugal, nem podíamos imaginar a gravidade da situação, e quando as suas cartas deixaram de vir definitivamente, ficámos muito preocupados com ele..."

O Primeiro Mártir Africano

Apesar de ter sido pressionado pelo clero, o Sr. Vieira não renegou a sua Fé. Seguiu-se um curto e penoso intervalo. Resumidamente, o Sr. Vieira foi despedido do seu emprego e privado de todos os seus benefícios e privilégios a que até então tinha direito. Para fazer face às necessidades de sustentar uma família, mulher e sete filhos (um deles vítima de paralisia), o Sr. Vieira criou uma Agência de Viagens, oferecendo os seus serviços como conselheiro legal à população nativa da sua cidade natal. Ele teve um tremendo desapontamento quando lhe foi liminarmente negado o visto para ir a Londres, para participar no Congresso Mundial Bahá’í, em 1963. As suas atividades de ensino Bahá’í continuaram inabaláveis. O clero instigava as autoridades a tomarem medidas severas e repressivas: a sua casa foi invadida, os livros, e toda a literatura bahá’í, foram confiscados e proibiram-no de realizar reuniões em sua casa. Além disso, toda a sua correspondência era passada pela “censura”. Mais tarde, todas as suas cartas eram intercetadas; em várias ocasiões o Sr. Vieira foi preso pela polícia sob pretextos frívolos, detido, maltratado e brutalmente espancado. Esta crescente maré de provações serviu apenas para aumentar a tenacidade da sua lealdade à Causa de Bahá’u’lláh e para dar novo ímpeto ao seu espírito heróico.

A condenação final do Sr. Vieira, sob a acusação de atividade política subversiva, teve lugar em 11 de Março de 1966, e foi seguida por um período de crescente opressão. Uma nuvem de obscuridade rodeia as circunstâncias da sua morte na prisão, em 31 de Março de 1966. Este foi o primeiro mártir Bahá’í Africano, para a Causa de Bahá’u’lláh; o seu sublime heroísmo imortalizou o seu nome nos anais da Fé.

Um relato dos trágicos acontecimentos deste período foi registado pela Sr.ª Vieira: “Cerca das 4 da manhã, do dia 11 de Março, a polícia invadiu repentinamente a casa e ordenou que o meu marido ficasse calado e não se movesse. Depois de uma busca devastadora permitiram-lhe que mudasse de roupa e levaram-no. Nós não podíamos contactá-lo. Mesmo quando nos permitiram levar-lhe alguma comida através da ajuda do médico da prisão, não nos permitiam vê-lo. Cerca de 10 dias depois, a polícia trouxe-o de volta para obter a chave do seu escritório. Eram cerca da 1 da manhã. Esta foi a última vez que ele viu as crianças. O seu escritório foi invadido e os papéis e livros confiscados. Um dia, quando eu lhe levei comida, o médico informou-me que ele seria levado para outra sala e eu pude ver o meu marido passar. Esta foi a última vez que eu o vi. Os guardas ordenaram-me que eu me retirasse. Depois da sua morte, através da intervenção do médico da prisão, permitiram-me que preparasse o seu corpo para o funeral Bahá’í. Enquanto o lavávamos, notámos que o seu corpo estava cheio de sinais de torturas, especialmente na sua cabeça. Mas realizámos um funeral Bahá’í e fizemos orações...”.

As mensagens finais para a sua mulher e crianças foram escritas, com dificuldade, com um instrumento afiado numa caixa de metal de biscoitos, na qual a Sr.ª Vieira levou comida para a prisão:

"Tonia: Este foi o caminho do destino. Tudo está terminado. Ama o teu irmão, ser humano, e educa as tuas crianças com amor. Ama todos. Perdoa todos os erros que eu cometi. Torna-te capaz de enfrentar a vida com naturalidade. Adeus eu desejo-te uma longa vida."

Duarte 29-3-1966.

"Queridas crianças:  Sejam sempre amigas de toda a gente. Não tenham ódio a ninguém. A vida é eterna e nunca acaba; ela acaba um ciclo e começa outro. Perdoem todos os erros do vosso pai. Que Deus vos proteja."

Duarte 29-3-1966.