O Modelo Eleitoral Bahá'í
- 27 de abr.
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Não faz muito tempo que em Portugal fomos chamados a participar em eleições, um momento importante da vida coletiva portuguesa. Como cidadãos, exercemos um dever cívico fundamental, contribuindo para a escolha de quem irá assumir responsabilidades na condução do país nos próximos anos. Este processo é, sem dúvida, um dos pilares da democracia, convidando cada pessoa a tomar parte na construção do futuro comum.
No entanto, é difícil ignorar alguns elementos que frequentemente acompanham os processos eleitorais contemporâneos. A competição, o combate entre visões opostas, a polarização do discurso público e uma aparente busca por poder acabam por marcar o ambiente em que estas eleições decorrem. Ainda que expressem a diversidade de opiniões existente na sociedade, estes elementos podem também contribuir para divisões que dissolvem o sentido de unidade.
Ao mesmo tempo, decorre um outro processo eleitoral, menos visível, mas profundamente significativo. A Comunidade Bahá’í de Portugal assistiu
à 65º Convenção Nacional, na qual é eleita a Assembleia Espiritual Nacional dos Bahá’ís de Portugal. Trata-se de um modelo de eleição que, por contraste com os sistemas mais comuns, pode até parecer idealista à primeira vista.

Imagina um processo eleitoral onde não existem candidaturas, campanhas ou qualquer forma de promoção pessoal. Um processo conduzido num ambiente de reflexão, oração e responsabilidade individual. Este é o modelo adotado na Fé Bahá’í.
Durante a Convenção Nacional, delegados eleitos pelas comunidades de todo o país reúnem-se para eleger os nove membros da Assembleia Espiritual Nacional. Cada delegado vota por escrutínio secreto, sem listas pré-definidas, sem debates eleitorais e sem influências externas organizadas.
Em vez disso, cada um é chamado a refletir de forma independente e consciente sobre quem, no seu entendimento, reúne qualidades como dedicação ao serviço, capacidade comprovada, maturidade e uma mente bem formada. Não se trata de escolher representantes de interesses ou posições, mas de identificar aqueles que melhor podem servir o bem comum. Cada voto tem exatamente o mesmo valor.
Outra função da Convenção Nacional é de oferecer uma detalhada leitura da realidade nacional, e sugestões benéficas para o desenvolvimento da comunidade sobre as quais a nova Assembleia possa deliberar.

Os membros eleitos para as instituições bahá’ís fazem-no de forma voluntária. Não existe clero na Fé Bahá’í, e a administração da comunidade é assegurada por instituições eleitas.
Ser eleito não é visto como uma conquista pessoal, mas como uma responsabilidade de serviço. E votar não é um ato de preferência individual ou lealdade a uma figura, mas uma contribuição consciente para o bem coletivo.
Apesar da singularidade do seu sistema, os bahá’ís não se afastam da vida cívica. Pelo contrário, são encorajados a participar ativamente na sociedade, contribuindo para o bem comum, o diálogo construtivo e a promoção da justiça e da unidade.
Participam em eleições públicas enquanto cidadãos, mas procuram evitar o envolvimento partidário ou a promoção de agendas políticas específicas. O seu objetivo é colaborar com todos, independentemente das diferenças, em prol de uma sociedade mais coesa.
Este modelo eleitoral não se limita a Portugal. Todos os anos, comunidades bahá’ís em todo o mundo realizam processos semelhantes durante o Festival de Riḍván.
De cinco em cinco anos, representantes de mais de 180 países reúnem-se no Centro Mundial Bahá’í, em Haifa, Israel, para eleger a Casa Universal de Justiça, o órgão internacional de governo da Fé Bahá’í. Desde a sua primeira eleição em 1963, este processo tem vindo a envolver uma diversidade crescente de povos e culturas, refletindo uma visão verdadeiramente global.
Num tempo em que a confiança nas instituições é, em muitos contextos, posta à prova, e em que os processos eleitorais são frequentemente marcados por tensões e divisões, o modelo bahá’í oferece uma perspetiva distinta.
Propõe que a governação não seja entendida como uma disputa pelo poder, mas como um exercício de serviço coletivo. Que os seus métodos promovam a unidade, e não a divisão. E que a escolha dos responsáveis seja guiada por qualidades e não por campanhas.
Para os bahá’ís, este sistema não é apenas uma forma de organização interna. É uma expressão prática de princípios que apontam para uma visão mais ampla: a de uma humanidade unida, capaz de construir, gradualmente, uma sociedade mais justa, harmoniosa e cooperativa.



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